04/01/2004 20:47
Bem amigos do "Bocado de Arte"...
Agora que as festas terminaram e o teor alcoólico do meu sangue diminuiu, podemos finalmente postar algo legível.
A propósito, vamos abrir este post desejando um feliz Ano Novo para todos! E recomendando: aproveitem ao máximo os eventos culturais de 2004! Nada de assistir Gugu no domingo, que a cidade oferece muita arte de graça. Depois apareçam por aqui para dar dicas e trocar idéias sobre o que vocês viram, leram e assistiram, que a missivista agradece e fomenta o diálogo!
2004 começa neste blog com um presentinho: coloquei algumas figuras aí ao lado, roubadas do ciberespaço. Tudo para que vocês, movidos pela curiosidade ante imagens tão belas, possam conhecer melhor as obras dos meus artistas preferidos! O problema é que eu não consigo colocar os títulos logo depois das imagens, que meu conhecimento de HTML é nulo. Resolvi, então, postar as legendas a seguir, juntamente com alguns links interessantes e observações pessoais sobre estes trabalhos.
1) A seleção começa com um detalhe da figura de Uta, que está no coro da Catedral de Naumburgo, na Alemanha. A obra é de cerca de 1260, e o seu autor, infelizmente, é desconhecido. (Nos livros de história da arte vocês encontrarão Uta fazendo par com Ekkehart II, seu esposo, outro dos donatários da Catedral que mereceram ser retratados por este grande artista.)
Escolhi este trabalho para provar a vocês que, definitivamente, Idade Média não é sinônimo de "Idade das Trevas". Ao contrário, esta época da cultura européia nos legou artistas de grande refinamento e capacidade técnica, como nos comprova este exemplo. Impossível não deixar de se maravilhar com a destreza deste escultor em traduzir para a pedra toda a fragilidade inerente à condição humana. Observem como sensações tão díspares como angústia e esperança estão presentes na delicadeza do rosto desta dama medieval, que fita o horizonte como que antevendo o futuro. Um futuro que provavelmente lhe reservou vicissitudes e grandes transformações, assim como a toda Europa desta época.
2) A segunda ilustração é um detalhe do auto-retrato de Artemisia Gentileschi, uma das raras mulheres a figurar no panteão das grandes artistas da história da arte ocidental. Chama-se Auto-retrato como alegoria da pintura, e foi produzido na década de 1630.
O que eu aprecio neste quadro é o modo despretensioso e ao mesmo tempo cheio de orgulho e dignidade com que Artemísia registrou seu ofício. É um quadro de grande vigor, como a maior parte dos trabalhos desta maravilhosa artista influenciada por Caravaggio. Procurem pelas suas famosas cenas do episódio bíblico de Judite matando Holofernes (a obsessão de Artemísia por este tema é explicado por um episódio triste de sua biografia). Confiram também os trabalhos do pai de Artemísia, Orazio Gentileschi, que por incrível que possa parecer, tem trabalhos mais delicados que os da filha...
3) Jean-Auguste Dominique Ingres...A missivista tirou a sorte grande e teve inúmeras obras deste artista a milímetros de seus olhos fascinados. Esta terceira figura é da obra Tétis e Júpiter, de 1811. Acho que mesmo nesta ilustração de tamanho miserável é possível visualizar a organização límpida da composição de Ingres, e uma das suas famosas figuras brancas e longilíneas de mulher.
A cena de Tétis e Júpiter tem por inspiração um episódio narrado na Ilíada, de Homero, quando a deusa roga ao seu amante que interceda a favor do seu filho, o semi-deus Aquiles, em uma disputa com o general Agamenon na famosa Guerra de Tróia. De se notar a beleza marmórea e estranha das suas personagens.
Neste link é possível acessar um esboço do artista e observar a qualidade e a precisão do seu desenho - Ingres era extremamente meticuloso na confecção de seus quadros, tanto no traço quanto no colorido a óleo.
Adendo: mesmo com o ingresso do MASP a absurdos dez contos, recomendo uma visita ao acervo para que vocês também possam se maravilhar pessoalmente com Ingres e sua "Angelica acorrentada", de 1849.
4) A arte moderna deve às gravuras japonesas muito da sua razão de ser. Foi a riqueza de efeitos visuais obtida com concisão de traços e cores, observáveis nesta Grande Onda, gravura do artista Hokusai, que abriram os olhos dos artistas europeus para novas formas de se conceber a pintura. A arte deixa de tentar imitar a natureza para explorar as possibilidades de seus próprios elementos: a cor e a linha.
O furor do movimento desta onda e as terminações de espuma semelhante a garras captam o navegante-espectador para as profundezas sinuosas desse desenho elegante e vigoroso.
5) Rigor, ordem, cores puras estes são os elementos com os quais Mondrian cria seu mundo de equilíbrio. Tudo a custa de muita disciplina, de uma busca incansável, quase mística, pela justaposição perfeita e pela composição correta. Esta Composição em vermelho, amarelo e azul, com a sua simplicidade de formas e complexidade conceitual, me apascenta o olhar e faz pensar sobre a infinidade de possibilidades de que a pintura é capaz.
6) Não poderia deixar de colocar um Anish Kapoor na minha seleção (no caso, a obra Vazio, de 1994). Este artista de origem indiana apresenta um trabalho atraente e intrigante, que cria verdadeiros portais para mundos de formas regulares, cores puras, volume e textura. Ou então para contrastes belos e harmônicos da pedra bruta com entalhes geométricos precisos. Resumindo: sabem aquelas esculturas que dão vontade de pôr a mão, entrar, abraçar, estas coisas? Isto é Anish Kapoor.
E aqui vai uma sugestão de leitura: Acessem este artigo com trechos de uma palestra de Agnaldo Farias relatando sua experiência fascinante com Anish Kapoor na Documenta de Kassel. Semelhante à que a missivista teve na Bienal Internacional de São Paulo de 1996. Aliás, a Bienal bem que podia trazê-lo de volta. Faria uma fã feliz!
enviada por Ana Bolena
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