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01/11/2003 22:55


Sobre uma vernissage

Sábado, 11 horas da matina. Isso lá é hora de abertura de exposição? Infelizmente, pro pessoal do CCBB era...
Só mesmo a vontade de ver boas obras de arte, tomar um prosecco e comer uns petit fours de graça (não necessariamente nesta ordem...) para me fazer levantar neste horário indecente. Dirigi-me ao regabofe ainda bocejando, sem criar muitas expectativas. Sabemos que a maioria das vernissages se resume a conversas vazias regadas a álcool.
Mas o dia até que me reservaria uma grata surpresa...
Foi assim que cruzei os portões: um baticum gostoso, hipnótico e ensurdecedor me conduziu ao interior do CCBB. Eram os músicos do evento, que já tinham iniciado sua performance. Acordei na hora. Subi correndo lá pro último andar para apreciá-los melhor. Fiquei embabascada. Imaginem uma sessão de jazz com berimbau, tambor, maracas, panelas e quetais. Era o que estava rolando nos três andares no prédio. O ritmo cadenciado e inebriante tomou conta do meu ser. Os músicos, de maneira cúmplice, encaravam tudo como uma grande brincadeira, os três riam e se empolgavam. E eu mais ainda, até então sem a ajuda do prosecco. Fiquei cerca de uma hora imersa em puro prazer estético, arrependidíssima por ter chegado atrasada.
Uma hora depois, quando acabou a sessão-transe e eu recuperei o senso de realidade, fui acometida pelo desejo de saber quem eram os músicos. Só que morri de vergonha de perguntar pros próprios. Fui me encontrar com uns monitores amigos à caça dessa preciosa informação. Infelizmente nem eles souberam responder, mesmo porque monitor é para explicar quadro e não para fazer tietagem. Droga. Teria que descer uns bons três lances de escada e ir perguntar lá na bilheteria.

Mas antes disso decidi pegar algo para comer.
Me despedi dos monitores e toquei pro segundo andar, que estava lotado, porque esses ratos de vernissage adoram ficar plantados na mesa dos salgadinhos, impressionante. Acho que nem sabiam de quem era a exposição...Bom, quem sou eu para falar mal deles? Àquela altura do campeonato eu também estava morrendo de fome. A ponto de virar sombra de garçom. (como sempre, os salgadinhos do CCBB estavam no ponto, preciso saber o nome do fornecedor... vai que eu resolva dar uma festa fina dia desses, não é mesmo?)

Só depois disso tudo é que eu fui - finalmente! - ver a exposição "Paisagens, paisagens, paisagens", com obras de Franz Krajberg, Eduardo Frota e Juliano de Moraes. O que eu poderia dizer destes artistas? Well... de Franz Krajberg afirmo que é o gênio da raça. O que ele faz com árvores é de encher os olhos. Esculturas lindas e harmoniosas surgem de troncos queimados, casas de cupim e raízes. Militante ferrenho a favor da ecologia, este artista denuncia a destruição das nossas matas usando como discurso a sua poética organizadora do caos - o material que ele utiliza vem de áreas queimadas, destruídas, e é desse inferno que são feitos os seus preciosos trabalhos.
Já Eduardo Frota me surpreendeu e maravilhou. Eu que só conhecia aqueles cones enormes da 25ª Bienal (que foram a melhor coisa daquela exposição, diga-se de passagem), acabei descobrindo que outras sensações igualmente impactantes são possíveis de se criar com seus círculos de madeira: grandes estruturas que se confundem com as paredes do CCBB que dão vontade de tocar, de abraçar, de deitar em cima. Belas e intrigantes aquelas esculturas serpenteando as salas, subindo e se enroscando pelas paredes, numa simbiose de madeira com concreto. A idéia foi muito, mas muito feliz. Pensei em roubar estas esculturas para pôr na minha casa, porque me lembraram Anish Kapoor, e eu amo Anish Kapoor.
Por último, no cofre do CCBB, acabei foi por me decepcionar com a obra de Juliano de Moraes. Só conseguia discernir que era algo muito feioso. A verdade é que naquele momento minha cabeça já estava cheia de prosecco, e isso me impediu de entender aquela sala - arte conceitual não combina com bebunzice. Além disso, estava temendo pela minha integridade física quando passei por aquele corredor cheio de graxa e grama. Eu precisava desesperadamente da ajuda de um monitor. Mas eles estavam bem longe dali, tomando prosecco talvez, que todo mundo é filho de Deus. Então, percorri novamente a sala, ainda em total ignorância, o que eu odeio fazer. Só pude deduzir que estas obras de Juliano de Moraes vão dar trabalho. O público, principalmente os adolescentes, adoram cometer umas "joselitagens" nesses ambientes com tinta fresca, terra, essas coisas. Imaginem a imundície. E como se não bastasse isso, a grama já fedia - e este é só o primeiro dia da exposição, que vai até janeiro...

***

São apenas quatorze obras - quantidade excelente para uma mostra. O espectador não se cansa, e o número reduzido favorece a contemplação cuidadosa. Foi uma delícia, valeu a pena acordar cedo. Vou voltar para ver com muito mais apuro, é claro, mesmo porque eu vivo no CCBB. E prometo que vou ler mais sobre Juliano de Moraes, porque é uma vergonha se lembrar do trabalho de alguém só pelo fedor da grama...

Exposição "Paisagens, paisagens, paisagens..." - Franz Krajberg, Eduardo Frota e Juliano Almeida
Centro Cultural Banco do Brasil - das 10 h às 21 h de terça a domingo


Ah, os músicos...continuo a não saber quem eram, já que o pessoal da bilheteria também não sabia... Mas o prosecco estava delicioso, era "Espumante Brut SALTON", em garrafas de 750ml.

enviada por Ana Bolena






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