13/11/2003 22:27

Das aberrações dos tempos de escola - I
Esta série poderia começar com a narrativa de algo insólito ocorrido com a própria missivista, já que minha passagem pelo colégio rendeu inúmeros episódios do gênero. Mas ao vasculhar livros didáticos do meu pai, descobri que tudo pode ser pior quando se trata do universo escolar. Diante dos textos que se seguem, vocês irão compreender que fui praticamente obrigada a fazer este post com a transcrição destas "pérolas". Observem a seguir o quanto de preconceito, ignorância e parcialidade os pupilos de antanho tinham que aprender (e ainda debaixo de palmatória!):
Obs.: os pontos-de-interrogação e exclamação em alta quantidade são as manifestações indignadas de quem vos fala.
(1) "Supremacia da Europa - Assim como o gênero humano, a civilização teve o seu berço nos planaltos da Ásia Central(?); porém, mesmo antes da era Cristã, já transportou seu centro para a Europa, que desde então se tornou como que o cérebro do mundo (????). Ainda que lutando contra mil obstáculos, o Europeu sempre adiantou-se na via do progresso; adquiriu domínio notável sobre o oceano; descobriu e civilizou o Novo Mundo e estabeleceu colônias com todos os países do globo. Feliz dele, se reconhecendo-se (sic) o instrumento da Divina Providência(????!!!!), empregando sua influência em dirigir as nações para Aquele a quem só pertencem a glória e o poder."
(2) (...) As villas de São Vicente e de Santo André da Borda do Campo foram as duas primeiras povoações do Brasil.
-Oh, mamãe! Mas a senhora não disse que os indígenas tinham suas aldeias? Então as aldeias dos indígenas não eram povoações?
-São sim, minha filha. Mas os indígenas são atrazados (sic), bárbaros e nós dizemos que são homens sem civilisação (sic). Os portugueses são civilisados (sic).
- Ah, já sei, mamãe! As villas de São Vicente e de Santo André da Borda do Campo foram as duas primeiras povoações civilisadas (sic) do Brasil.
- Isso mesmo, Doutora Sabe-Tudo!!!!
***
- Mamãe! Hoje estou tão triste! A professora mandou-me sentar na escola ao lado de Laura, uma pretinha.
-Por que ficaste triste, Lili?
- Oh, mamãe! Eu gostava mais de sentar-se ao lado de uma menina branca (!!!!!!!!!!!!!!!)
_ Os pretos são bons como nós, Lili (!!!!!!!!!!!!!!!) Eles têm boas qualidades, que os tornam estimados e respeitados (!!!!!!!!!!!!!!)
(...)
(Os escravos) Eles não eram maus. Quando os tratavam bem, affeiçoavam-se aos seus amos e eram muito dedicados (!!!!!!!!!!!).
(...)
Os brasileiros, que sempre foram bons e generosos (!!!!!!!!!!!!) não gostavam de assistir aos horrores da escravatura. Depois de proclamada a independência, trataram de fazer alguma coisa em benefício dos pobres escravos. A Inglaterra interessou-se pelos pretos (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!) e combinou com o Brasil não permitir que os navios negreiros fossem buscar essa pobre gente na África.
(...)
-Mamãe, a senhora me dá licença para eu levar a minha boneca de louça à escola, para dal-a de presente à Laura? Coitadinha! Eu não sabia que ella era tão infeliz! (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!)
- Oh, filha! Deus te conserve sempre assim, boa e generosa!
(N.T. - Nota da "transcritora": Chega a ser surreal se deparar com tanta porcaria! Mas não poderia deixar de fazer alguns comentários: Quanto ao primeiro texto, aquilo não é de um livro de religião, é de um livro de geografia para alunos do primário (!). Data de 1940. Para que vocês tenham noção da deformidade que este livro causou em meu pai, basta contar a vocês que o velho, de vez em quando, emitia opiniões a respeito da situação do mundo nestes mesmos moldes eurocentristas e preconceituosos. Como se nenhuma outra parte deste globo tivesse contribuído para que os europeus pudessem "conquistar" o que conquistaram, como se em nome de Deus se pudesse saquear e dizimar milhões de pessoas e "colonizar" o Novo Mundo, como se "progresso" fosse aquilo que foi trazido ao Brasil ou à África...
E quanto aos textos n○ 2, considero uma mostruosidade a forma como estes livros faziam com que as crianças cultivassem a hipocrisia e o racismo "velado". Como é que a formação desses educadores conseguia ser tão tacanha, simplista, obtusa, sem embasamento? Não consigo acreditar que o meu pai "aprendeu" história e geografia desse jeito. Só posso lamentar pelas crianças de sua geração...
E esta série não acaba por aqui. Breve postarei outras excrescências escolares, algumas bem mais recentes. Se vocês se depararam com "livros-aberração" desse quilate nos bancos escolares, conte sua história acessando os comentários!
(1) Geografia Atlas Editora FTD 1940
(2) Pequenas Lições de História Pátria Autor: José Scarameli Editora Brasileira - 1938
enviada por Ana Bolena
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