!!! Bocado de Arte !!!


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19/10/2003 20:30
São Paulo é a cidade mais feia do mundo - imunda, cinza, sem estilo, sem charme. É praticamente irreconhecível. O seu centro histórico, que seria o orgulho de qualquer cidade civilizada, continua abandonado. E para aumentar ainda mais minha indisposição com esse lugar medonho, eu ainda tenho o "privilégio" de ver o Minhocão cortando a São João todos os dias...
(Por isso é que eu sempre digo: com tanta desgraça, o Maluf e a TFP só poderiam ter surgido nessa terra...)
Estou falando com conhecimento de causa: nasci, cresci e vivo nessa cidade do mal. Conheço a sua história, sei que um dia Sampa foi linda e habitável. E por saber que um dia vivíamos no paraíso é que muitos dos paulistanos tentam recuperar ao menos uma parte daqueles nossos dias de glória.
Uma das redentoras iniciativas nesse sentido foi a restauração da Pinacoteca do Estado. Hoje a Pinacoteca é a minha terceira casa (a segunda casa é o "Centro Cultural Banco do Brasil"...), e foi nela que eu passei este fim de semana. Foi como ir para o Mundo de Oz! O caos lá fora e eu lá dentro, rodeada de arte e beleza - no paraíso!
Sábado (ontem) fui visitar o acervo sem a mínima pressa, como deve ser. Li todos os painéis explicativos, cravei meu olhar nas obras que eu achava mais bonitas, acompanhei os monitores, sentei nos bancos para descansar e apreciar melhor os quadros maiores, tudo de forma zen. Arte requer concentração. E minha disciplina rendeu: as lindas e amplas salas da Pinacoteca ofereceram à "viajante" um passeio agradabilíssimo aos séculos 19 e 20 da História da Arte Brasileira.



"Leitura", de Almeida Júnior - Óleo sobre tela - 1892

E como esta atividade ocupou toda a minha tarde (mesmo porque eu faço anotações, perguntas, tomo um café, volto, vou a lojinha, gasto os tubos por lá, jogo uma conversa fora com os monitores etc, etc...), tive que voltar no domingo para apreciar uma das exposições mais bem-feitas que eu já tive o privilégio de visitar em toda a minha vida de tiete de museu: a mostra "Vistas do Brasil". Dessa vez acabei ficando com um áudio-guia para me dar maiores informações (e era muuuuita informação, mas bem organizada e compreensível) sobre os pintores-viajantes que retrataram nossas paisagens. Desenhos, aquarelas, quadros, livros e até uma sala que abrigava um extenso panorama em papel de parede contavam quais eram as motivações destes pintores e em que escolas e tendências artísticas eles teriam se baseado para criar as suas composições. Tive acesso também pela primeira vez a uma câmara escura, precursora da máquina fotográfica, e pude entender como é que muitos desses artistas conseguiam compor paisagens tão detalhadas através dessas geringonças.
"Vistas do Brasil" é uma mostra educativa e lúdica, que não apela para as tais "cenografias" para esconder as deficiências da curadoria. As obras bastam para maravilhar o espectador e conduzí-lo em seu aprendizado. É como nos ensina o professor Carlos Roberto Maciel Levy, "Com iluminação e disposição adequadas, as obras de arte já guardam em si o poder de encantar leigos e especialistas com suas notáveis qualidades. Elas possuem dignidade e atrativo simbólico suficientes para criar empatia com o público e proporcionar informação cultural."
Se compararmos este "Vistas do Brasil" com "aquilo" que estava na "Mostra do Redescobrimento" como sendo a sala dos artistas-viajantes, notamos que a concepção mostrada na Pinacoteca é infinitamente superior, inteligente e moderna. A Pinacoteca de São Paulo nos dá uma lição: museu não é circo, não é teatro, e não é com cenografia modernosa que o público passará a ir torrencialmente às exposições para aprender história da arte. O Edemar Cid Ferreira é que precisa aprender isso.

enviada por Ana Bolena






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