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24/09/2003 22:34
Sobre a novíssima safra do cinema nacional

Quando eu prestei vestibular, lá pelo início dos anos 90, escolher o curso de cinema era pior do que escolher artes plásticas, filosofia ou história. Você poderia provocar um infarto nos seus pais com essa "nefasta" opção. Afinal, vocês sabem, pai e mãe pagam a escola da gente para que façamos as escolhas óbvias de sempre - medicina, direito, essas porcarias - e não para nos aposentarmos "mendingando dinheiro pra fazer filme", que é como eles vaticinavam o nosso futuro... (Fazer o quê? É a mentalidade classe-média-pequeno-burguesa ainda imperando em nossos lares...)
Bem, mas como eu ia dizendo, nos primórdios dos anos 90 cinema era realmente uma opção impensável porque simplesmente não havia produção cinematográfica em Pindorama. Collor, o execrável, havia acabado com a Embrafilme ainda há pouco. Que anos tristes aqueles! (lembra, Terta?)
Porém o que é ruim também dura pouco, e a maré começou a melhorar pro nosso lado em 1995, quando a Carla Camurati lançou "Carlota Joaquina". Milaaaaaaaagre! O cinema brasileiro renasce das cinzas! "Carlota Joaquina" foi um empurrão ladeira abaixo para os nossos cineastas! A partir daí, foi só alegria. A volta dos tempos gloriosos do cinema brasileiro passou a ser possível: Guilherme de Almeida Prado, "Matadores", "Kenoma", "O Judeu", "Festa", "Sábado", "Nós que aqui estamos por vós esperamos", "Central do Brasil"... Surgem filmes bons e outros nem tão bons assim, mas em quantidade cada vez maior, o que é excelente, já que é da quantidade que se garimpa a qualidade.
E eis que agora vivemos este momento único de grandes lançamentos, prêmios, de praticamente um filme nacional estreando por semana! Produções cada vez mais cuidadosas, dinheiro sendo investido na coisa. Criatividade, boas atuações, incentivo. Fico muito feliz em ver o cinema brasileiro fervilhando com boas idéias, em ver as pessoas fazendo fila para assistir nossos filmes, em ler as críticas dos jornais discutindo apaixonadamente sobre os lançamentos, em ouvir comentários e debates. E no meio do povo lá estou eu, com meu ingressinho na mão, sendo testemunha deste momento histórico da cultura nacional!

E para registrar minhas impressões da produção ultra-recente, destaco o vigoroso "Amarelo Manga" na categoria BBB: bom, bonito e barato! E permitam-me um comentário: decididamente, a câmera digital é a salvação da lavoura. Como eu havia comentado a respeito do filme "Dez" de Abas Kiarostami, a técnica digital barateia a produção e permite que o diretor tenha mais liberdade na concepção de suas histórias. Se der na veneta, o diretor pode filmar e editar sozinho, e rapidamente, sem intermediários. O filme fica com a cara do dono. As idéias se traduzem visualmente com mais eficiência. Bem, esta é apenas a minha opinião, tem gente que detesta cinema digital. Eu, não. Acho lindo. Tecnologia é lindo. Facilita a vida. Com todo o respeito à moviola, mas eu sou mais edição no computador. Mas a tecnologia não serviria de nada se não tivéssemos talento. E "Amarelo Manga" é filme de muito talento. Reúne enredo criativo e interpretações fortes, lembrando muito a produção dos anos 70, aquelas cheias de palavrões e mulher pelada. Só faltava o som tosco, mas desse mal já não sofremos mais, graças a Deus. Temos a Leona Cavalli, discípula de Zé Celso, queridinha do Paulo Autran, excelente atriz oriunda dos palcos paulistas. Corajosa, a moça. Temos também o Chico Dias e a Dira Paes, casal 20! Seus personagens são difíceis de se fazer, de moral dúbia, suas convicções acerca do amor e do modo como devem conduzir a vida são confusas. Mas os dois conseguem traduzir este conflito interior, em excelentes atuações (seus olhares e postura corporal dizem muito de suas angústias). E o Matheus Nachtergaele é "hors concours", nem vou falar do homem, que todo mundo já sabe que ele é bom. Jonas Bloch está correto em seu papel ingrato de, digamos, um ser nojento.
Nossos heróis transitam em um universo decadente, localizado especificamente na periferia de Recife. Todos procuram amor. Uns acham. Outros não. E eu não vou contar mais, porque quem não viu tem que ver. Ah, e não tem nada desse papo de “denúncia social”, “retrato da pobreza”, essas coisas do tempo do CPC, fique tranqüilo.

***

Ao contrário de muitos críticos, gostei imensamente de “O Homem do Ano” porque este é um filme profissional, tanto na caprichada produção como na atuação da maioria do elenco. O roteiro foi bem encadeado (trabalho de um dos meus escritores preferidos, Rubem Fonseca, baseado no livro "Matador" de Patrícia Melo), Murilo Benicio está muito bem na fita, e sobram louros também para a Natália Lage, que incorporou convincentemente a garota de subúrbio doidivana. Só a Cláudia Abreu que não merece meu elogio porque ela é uma atriz muito, mas muito canastrona. - reluto em assistir "O caminho das nuvens" por causa dela. Mas preciso ir, porque senão estaria sendo incoerente nesse meu discurso...
O Homem do Ano trata do círculo que se fecha em torno de Máiquel (esse nome é demais!) à medida em que ele se infiltra no mundo da corrupção e da bandidagem. O clima claustrofóbico se traduz nos cenários quase sempre fechados em que a trama se desenrola. Difícil ter uma externa, a não ser no início, nas execuções que Máiquel vez ou outra resolve fazer em um descampado e na cena final, que me remete, no espírito, ao desfecho de "Os Incompreendidos" de François Truffaut.
Preciso agora é ler o livro!

enviada por Ana Bolena






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