28/07/2003 23:55
Eu e as velhinhas da Paulista frequentamos o Cinearte. "Só dá nóis na fita". Nós amamos o Cinearte porque este maravilhoso cinema nos oferece o que há de melhor na decoração kitsch dos anos 70, com seu teto pintado de azul-calcinha, aquelas caixas de som revestidas de madeirite, uns apliques geométricos na parede estilo op-art, poltronas de vinil vermelho, jazz nos intervalos, pipoca honesta...mais retrô que isso, só o fato de não aceitarem cartão de crédito!
Mas eu e as velhinhas também apoiamos o Cinearte porque ele luta ferozmente contra os Cinemarks da vida. Chega de tranqueira, é o nosso lema! Chega de termos como opção apenas m... do tipo "Cruzeiro das Loucas", daquela pipoca fedorenta lambuzada de manteiga oferecida por aqueles atendentes robotizados, daquele comercial cretino que passa antes dos filmes, de pagar 14 paus para ver o que eu posso ver no Cinearte por 5!!!!!!!!! Chega de cinema de shopping!!!!!
Queremos, eu e as velhinhas, o cine Ipiranga e o Marabá de volta, assim como o Cinespacial, o Copan, e outros mais. Queremos ouvir Paul Mauriat nos intervalos e ver o Canal 100 nas aberturas. Só não queremos voltar a ver aquela ficha da censura antes dos filmes, é claro.
Eu e as velhinhas vimos no domingo o filme "Dez" de Abbas Kiarostami. Só posso dizer que o filme é dez, porque não consigo pensar em outra coisa a não ser neste trocadilho infame.
Os críticos disseram que "Dez" fala da opressão feminina no Irã...e eu perguntei para as velhinhas onde elas tinham visto opressão feminina no filme, e elas não souberam me responder. Os críticos viajam, elas me disseram. Eles acham que só porque o filme era iraniano, então necessariamente tinha que falar do regime xiita dos aiatolás e do quanto que a mulherada sofre por lá. É o mesmo que concluir que filme brasileiro necessariamente deve falar de pobreza porque somos um país pobre!
Para esta conclusão, é só fazer uma recapitulação das cenas: Alguma vez vocês chegaram a ver a motorista-protagonista do filme dizendo que foi espancada pelo ex-marido? Que foi proibida de se divorciar? De trabalhar? De ficar com o problemático do filho? Não, né? Nem eu! E reparem ainda: nem o véu a mulher põe direito na cabeça!!!! Reclama com tudo quanto é motorista néscio e - cúmulo para um país "xiita"! - chega até mesmo a dirigir pelas noites e a conversar com uma prostituta sobre aborto!!! Onde é que há opressão feminina aí? Não estou vendo nada parecido com aquela rigidez de costumes semelhante à que conhecemos do Afeganistão sob o Taliban, por exemplo. O que eu consigo vislumbrar é apenas o taliban da cabecinha dos nossos críticos, que se recusam a analisar um filme de forma coerente...
Eu e as velhinhas chegamos a conclusão de que "Dez" trata da condição feminina em uma visão universal. O enredo poderia acontecer em qualquer lugar deste planeta (e não apenas no Irã!), e é simplesmente o seguinte: mulher dá carona para meio-mundo e através dos diálogos ficamos sabendo que ela acabou de se divorciar, que é uma pessoa atarefada, bem-resolvida com relação aos homens, e que estaria precisando apenas de um pouco de tato para lidar com o filho-problema. Ponto. Simples assim. Mas como estamos falando de um filme de arte, sabemos que esta concepção básica compreende um filme estupendo, feito de diálogos inteligentes. Um filme para fazer pensar. Um milagre do cinema digital, que permite ao diretor fazer filmes-cabeça com orçamento pífio - atentem para os créditos: não duram nem um minuto!
Eu e as velhinhas recomendamos a vocês este bonito filme, de coração. E de preferência, dêem uma força para o Cinearte! Av. Paulista, no Conjunto Nacional, sessões às 14h, 15h50, 17h40, 19h30 e 21h20.
enviada por Ana Bolena
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