13/02/2002 01:05
Impressões de Leitura:
Helena, de "A Carne", não é apenas bela; é uma rapariga versada em todos os campos do saber de sua época: leitura, escrita, gramática, aritmética, álgebra, geometria, geografia, história, francês, espanhol, natação, equitação, ginástica, música...Em tudo isso nossa heroína já é especialista aos...quatorze anos! Não contente com esta estupenda formação, o pai da jovem ainda a despacha para a cidade, onde ela "teve então ótimos professores de línguas e de
ciências; estudou o italiano, o alemão, o inglês, o latim, o grego; fez cursos muito completos de matemáticas, de ciências físicas, e não se conservou estranha às mais complexas ciências sociológicas."
O que uma sumidade como esta vai resolver aprontar ??? Foi a pergunta que fiz ao deparar-me com "A Carne", de Julio Ribeiro (1888) - obra-prima do humor involuntário - você o lerá sempre esboçando aquela sua risadinha de canto, seja pelo pedantismo da protagonista, seja pelo pedantismo do pretendente da protagonista, ou pela "tese" defendida pelo autor de que o impulso sexual, pelo seu caráter puramente animalesco, não é digno daqueles que se dedicam às causas do intelecto. Ao invés do casal partir pro abraço logo no começo do livro e nos poupar de tanta encheção de lingüiça, Helena e seu amado têm que nos brindar com cartas intermináveis e palestras sobre os mais variados assuntos: uma picada de cobra se transforma em uma aula sobre os ofídios de nossa fauna e sua periculosidade. Uma viagem é pretexto para uma descrição minuciosa de Sâo Paulo, das estradas de ferro, da Serra do Mar, do litoral...(Aliás, capítulos inteiros de cartas e solilóquios poderiam ser suprimidos sem que com isso o enredo se alterasse!) Diante disso, concluímos que não é à toa que Helena chuta o balde e se casa com um zé-mané no final da história! Até eu faria o mesmo!
A posteridade não perdoa a falta de méritos do romance. A História só registra o fato de que "A Carne" inaugurou a Escola Naturalista entre nós, em virtude das descrições cruas dos relacionamentos entre Helena e Manuel Barbosa, o tal do sabe-tudo (que é também um excelente amante, pois, é claro, estamos falando de super-heróis!)
Mas o livro não me foi de todo mau. Sugiro sua leitura pelo retrato de São Paulo antigo e, naturalmente, pelos seus trechos polêmicos.
Para ler "A Carne" na íntegra, acesse: http://www.ig.com.br/paginas/novoigler/livros/carne_julio_ribeiro/index.html
Para atiçar a curiosidade do leitor amigo, uma seleção "Reader's Digest" de "A Carne", inaugurando nosso blog "Um Bocado de Arte":
"Uma tarde, achando-se só em sua sala, Lenita sentiu-se tomada de uma languidez deliciosa, sentou-se na rede, fechou os olhos e entregou-se à modorra branda que produzia o balanço. Em frente, sobre um console, entre outros bronzes que trouxera, estava uma das reduções célebres de Barbedienne, a da estátua de Agasias, conhecida pelo nome de Gladiador Borghese. Um raio mortiço de sol poente, entrando por uma frincha da janela, dava de chapa na estátua, afogueava-a, como que fazia correr sangue e vida no bronze mate. Lenita abriu os olhos. Atraiu-lhe as vistas o brilho suave do metal ferido pela luz. Ergueu-se, acercou-se da mesa, fitou com atenção a estátua: aqueles braços, aquelas pernas, aqueles músculos ressaltantes, aqueles tendões retesados, aquela virilidade, aquela robustez, impressionaram-na de modo estranho. Dezenas de vezes tinha ela estudado e admirado esse primor anatômico em todas as suas minudências cruas, em todos os nadas que constituem a perfeição artística, e nunca experimentara o que então experimentava. A cerviz taurina, os bíceps encaroçados, o tórax largo, a pélvis estreita, os pontos retraídos das inserções musculares da estátua, tudo parecia corresponder a um ideal plástico que lhe vivera sempre latente no intelecto, e que despertava naquele momento, revelando brutalmente a sua presença. Lenita não se podia arredar, estava presa, estava fascinada. Sentia-se fraca e orgulhava-se de sua fraqueza. Atormentava-a um desejo de coisas desconhecidas, indefinido, vago, mas imperioso, mordente. Antolhava-se- lhe que havia de ter gozo infinito se toda a força do gladiador se desencadeasse contra ela, pisando-a, machucando-a, triturando-a, fazendo-a em pedaços. E tinha ímpetos de comer de beijos as formas masculinas estereotipadas no bronze. Queria abraçar-se, queria confundir-se com elas. De repente corou até à raiz dos cabelos. Em um momento, por uma como intussuscepção súbita, aprendera mais sobre si própria do que em todos os seus longos estudos de fisiologia. Conhecera que ela, a mulher superior, apesar de sua poderosa mentalidade, com toda a sua ciência, não passava, na espécie, de uma simples fêmea, e que o que sentia era o desejo, era a necessidade orgânica do macho. Invadiu-a um desalento imenso, um nojo invencível de si própria. Robustecer o intelecto desde o desabrochar da razão, perscrutar com paciência, aturadamente, de dia, de noite, a todas as horas, quase todos departamentos do saber humano, habituar o cérebro a demorar-se sem fadiga na análise sutil dos mais abstrusos problemas da matemática transcendental, e cair de repente, com os arcanjos de Milton, do alto do céu no lodo da terra, sentir-se ferida pelo aguilhão da carne, espolinhar-se nas concupiscências do cio, como uma cabra, como um animal qualquer... era a suprema humilhação. Fez um esforço enorme, arrancou-se do feitiço que a dementava, e, vacilante, encostando-se aos móveis e às paredes, recolheu-se ao seu quarto, fechou com dificuldade as janelas, atirou-se vestida sobre a cama. Jazeu imóvel largo espaço."
enviada por Ana Bolena
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